cecilia meireles

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domingo, 31 de janeiro de 2010

herança

Eu vim de infinitos caminhos,


e os meus sonhos choveram lúcido pranto

pelo chão.





Quando é que frutifica, nos caminhos infinitos,

essa vida, que era tão viva, tão fecunda,

porque vinha de um coração?





E os que vierem depois, pelos caminhos infinitos,

do pranto que caiu dos meus olhos passados,

que experiência, ou consolo, ou prêmio alcançarão?

Atitude

Minha esperança perdeu seu nome...



Fechei meu sonho, para chamá-la.


A tristeza transfigurou-me


como o luar que entra numa sala.










O último passo do destino


parará sem forma funesta,


e a noite oscilará como um dourado sino


derramando flores de festa.










Meus olhos estarão sobre espelhos, pensando


nos caminhos que existem dentro das coisas transparentes.










E um campo de estrelas irá brotando


atrás das lembranças ardentes.

Meu Sonho

Parei as águas do meu sonho



para teu rosto se mirar.


Mas só a sombra dos meus olhos


ficou por cima, a procurar...


Os pássaros da madrugada


não têm coragem de cantar,


vendo o meu sonho interminável


e a esperança do meu olhar.


Procurei-te em vão pela terra,


perto do céu, por sobre o mar.


Se não chegas nem pelo sonho,


por que insisto em te imaginar?


Quando vierem fechar meus olhos,


talvez não se deixem fechar.


Talvez pensem que o tempo volta,


e que vens, se o tempo voltar.






Motivo (Cecília Meireles)






Eu canto porque o instante existe


e a minha vida está completa.


Não sou alegre nem triste:


sou poeta.


Irmão das coisas fugidias,


não sinto gozo nem tormento.


Atravesso noites e dias


no vento.


Se desmorono ou edifico,


se permaneço ou me desfaço,


- não sei, não sei. Não sei se fico


ou passo.


Sei que canto. E a canção é tudo.


Tem sangue eterno e asa ritmada.


E sei que um dia estarei mudo:


- mais nada






Traze-me (Cecília Meireles)






Traze-me um pouco das sombras serenas


que as nuvens transportam por cima do dia!


Um pouco de sombra, apenas,


- vê que nem te peço alegria.


Traze-me um pouco da alvura dos luares


que a noite sustenta no teu coração!


A alvura, apenas, dos ares:


- vê que nem te peço ilusão.


Traze-me um pouco da tua lembrança,


aroma perdido, saudade da flor!


-Vê que nem te digo - esperança!


-Vê que nem sequer sonho - amor!






Timidez (Cecília Meireles)






Basta-me um pequeno gesto,


feito de longe e de leve,


para que venhas comigo


e eu para sempre te leve...


- mas só esse eu não farei.


Uma palavra caída


das montanhas dos instantes


desmancha todos os mares


e une as terras mais distantes...


- palavra que não direi.


Para que tu me adivinhes,


entre os ventos taciturnos,


apago meus pensamentos,


ponho vestidos noturnos,


- que amargamente inventei.


E, enquanto não me descobres,


os mundos vão navegando


nos ares certos do tempo,


até não se sabe quando...


e um dia me acabarei.






Canção (Cecília Meireles)






Não te fies do tempo nem da eternidade,


que as nuvens me puxam pelos vestidos


que os ventos me arrastam contra o meu desejo!


Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,


que amanhã morro e não te vejo!


Não demores tão longe, em lugar tão secreto,


nácar de silêncio que o mar comprime,


o lábio, limite do instante absoluto!


Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,


que amanhã eu morro e não te escuto!


Aparece-me agora, que ainda reconheço


a anêmona aberta na tua face


e em redor dos muros o vento inimigo...


Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,


que amanhã eu morro e não te digo...






Serenata (Cecília Meireles)






" ... Permita que eu feche os meus olhos,


pois é muito longe e tão tarde!


Pensei que era apenas demora,


e cantando pus-me a esperar-te.


Permite que agora emudeça:


que me conforme em ser sozinha.


Há uma doce luz no silencio,


e a dor é de origem divina.


Permite que eu volte o meu rosto


para um céu maior que este mundo,


e aprenda a ser dócil no sonho


como as estrelas no seu rumo ... "






Cecília Meireles






O meu amor não tem


importância nenhuma.


Não tem o peso nem


de uma rosa de espuma!


Desfolha-se por quem?


Para quem se perfuma?


O meu amor não tem


importância nenhuma.